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A festa de despedida

por Lucelia, em 14.01.14

 

 

Preferia mil vezes não ter que admitir que nada disto me agrada minimamente porque tenho a certezinha absoluta que isto vai acabar mal ó se vai! É que se eu conseguisse mesmo prever o futuro nem saía da cama, e eu disse isso à Zefa quando ela me veio dizer que precisava de antecipar o casamento porque a namorada dela está grávida e ela sempre quis ser pai portanto resolveu aceitar toda a situação sem questionar e eu acho mal mas não vou dizer mais nada porque depois dizem que eu é que tenho este feitio que até parece que tenho que andar sempre a dizer mal de tudo e de todos e não é bem assim, eu só digo aquilo que vejo, se vejo melhor que elas olha paciência que vão pedir à Maria Antónia que lhes faça um desconto lá na óptica para ver se deixam de ter vistas curtas!

 

Bom mas voltando ao tema do casamento da Zefa eu até lhe disse que seria melhor esperar pela lei da co-adopção porque aquilo foi aprovado mas agora parece que há lá um moço que acha mal e quer voltar atrás com a lei e se fosse eu obrigava-o a assumir a paternidade do filho da namorada da Zefa para ele ver o que era bom para a tosse, agora impedir pessoas que querem ser pais e mães de o serem só porque a sementinha veio doutros lados, até parece que somos todos filhos biológicos dos nosso pais, há-de ser há-de que o meu irmão tem uma penca tal qual o Onófrio dos ferros velhos e só o meu pai é que nunca percebeu que um rapagão daqueles nunca poderia ter sido prematuro, mas ele nunca foi bom de contas e também nunca ninguém lhe quis dizer as coisas tal como elas são porque o meu pai era um homem tão bom e generoso que perfilhava qualquer coisa que saísse do ventre da minha mãe se ela lhe pedisse.

 

Mas a Zefa diz que sente o relógio biológico que é assim uma coisa que agora está muito na moda e toda a gente diz que ouve aquilo a bater dentro de si mas felizmente a mim é mal que não me aflige porque eu sempre soube que ter filhos era coisa que não me assistia. A Rosalina perguntou como é que tinha sido possível e a Zefa disse-lhe que tinha sido obra de Deus e ela até ficou um bocado chateada porque está farta de pedir a Deus que lhe mande criancinhas e Ele nada, mas à Zefa que nem vai à igreja nem nada pumba, toma lá uma criancinha que é para veres como Eu sou O que manda nisto tudo e gosto de todas por igual mas gosto mais dumas que outras que é sempre assim quando a gente acha que merece muito uma coisa quem recebe é a pessoa que está ali mesmo ao lado e se não fosse cá por umas coisas que eu sei mas a Rosalina não ia começar a achar que se calhar Deus é estrábico!

 

Com a pressa claro que não deu tempo para organizar uma despedida de solteira como a Zefa queria, ela sempre disse que se um dia se casasse agarrava em todas nós e levava-nos para Las Vegas, ou pelo menos a Badajoz, mas assim acabámos todas no restaurante Estrela do Demo que qualquer dia ainda me acusam de estar a ser patrocinada pelo dono mas não, acontece que o Sr. Vitor deve ser das poucas pessoas que ainda atura as parvoíces das fufas aqui da zona e quando a Zefa lhe disse que queria que ele fechasse o restaurante para a festa de despedida dela ele encolheu os ombros mas disse logo que sim porque assim como assim o negócio está fraco e nem as vendas dos vouchers o têm safado.

 

Foi assim que no sábado à noite rumámos para o restaurante, eu sempre de trombas porque tenho esta cara que não dá para disfarçar e se não concordo com uma coisa toda a gente há-de ficar a saber e se calhar é por isso que dizem que eu tenho mau feitio mas daqui a uns tempos voltamos a falar que eu não dou um tostão furado pela Zefa mais a namorada e um filho que ela deve ter arranjado lá pela clientela do bar de alterne onde trabalha. As outras calam-se todas muito bem caladinhas porque o que este gajedo quer é festas, e desde que haja comida e bebida à descrição por elas está sempre tudo bem.

 

E comida e bebida foi o que não faltou na festa da Zefa, e muito ruído e muita palhaçada e eu confesso que houve ali uma altura que até eu me ri quando a Micaela saca duma boneca daquelas insufláveis já toda cheiinha e diz à Zefa que é a última vez que ela pode pôr a língua noutros buracos que não os da namorada e vai a Idalete e enche os buracos de chantilly e diz à Zefa que é para aproveitar que aquilo ao menos é docinho e a Zefa como já tinha bebido um bocado vai e enfia mesmo a língua nos buracos e fica cheia de chantilly por todo o lado e o que me vale é que tirei umas fotografias com o meu telemóvel e vou guardá-las muito bem guardadinhas porque nunca se sabe quando é que vão dar jeito no futuro!

 

No próximo fim-de-semana é o casamento, e a Zefa teve o desplante de me dizer que não me convidava para madrinha porque não queria lá uma mulher de trombas a estragar o ramalhete mas mesmo assim quer que eu vá porque somos amigas desde que somos gente e sempre é um marco importante na vida dela. E perguntou-me o que é que eu achava de convidar a Micaela para madrinha da criancinha, e eu disse-lhe que achava mal porque a Micaela não tem cabecinha nenhuma e uma vez quis à força ter uma gatinha mas depois como não lhe ligava nenhuma e esquecia-se de lhe dar comida a gata passava os dias a miar como se a estivessem a esganar e um dia tiveram que chamar a liga da protecção dos animais e tudo porque o raio da bicha não se calava e a Micaela estava ausente em parte incerta. Mais valia a madrinha ser a Rosalina, porque apesar de tudo ela sempre quis ter criancinhas, enfim, se for uma menina talvez seja melhor não, talvez seja melhor ser a Salomé ou a Idalete, embora se fosse eu a escolher não queria nenhuma das minhas amigas para madrinhas de criancinhas nenhumas, não por serem fufas mas porque são todas um bocado destrambelhadas e estou mesmo a ver um dia perderem a criancinha por aí e termos que ir à polícia fazer queixa e explicar que a culpa é toda desta sociedade que permite que tipos que frequentam bares de alterne possam fazer filhos às funcionárias sem que nada lhes aconteça e depois são as amigas das namoradas que têm que levar com os filmes todos quando as coisas dão para o torto! Porque vão dar, ou não me chame eu Lucélia Maria das Rosas!

 

 

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publicado às 13:37

Fufas famosas - Daniela Mercury

por Lucelia, em 10.01.14

 

 

A pedido de muitas famílias, a bem dizer na realidade a pedido da Micaela que está zangadíssima comigo por ter revelado o segredo dela vou finalmente escrever sobre essa cantora brasileira famosérrima que é a incontornável Daniela Mercury. Dentro das cantoras fufas ela é talvez a única que é famosa à escala global, a não ser que outras cantoras populares brasileiras se assumissem como a Gal Costa, a Simone, a Zélia Duncan ou mesmo quem sabe a Joana.

 

E quem é a Daniela Mercury? Se precisam de perguntar é porque não vivem neste mundo e o melhor é mesmo voltarem à nave de onde vieram e seguirem sempre em frente por essa via láctea fora porque aqui não há espaço para quem não se curve perante uma das maiores deusas da MPB. A Daniela é assim tchan, não há palavras para a descrever, é maior que a vida, que o sol, que o amor, que o calor, é assim transcendental e se quiserem podem comprar o livro que a mulher dela escreveu e passar uma centena de páginas a lerem o quanto ela é enorme, linda, maravilhosa, um ser das estrelas, das luzes, de tudo e de todos o que eu até compreendo porque acordar todos os dias com um mulherão daqueles ao nosso lado não é para qualquer uma e isso deve mesmo fazer-nos andar por aí a debitar um montão de baboseiras a cada segundo da nossa miserável existência.

 

Mas que as meninas baianas são lindas disso não há a menor dúvida, nem precisava comprar o livro da Malu para saber. Eu a bem dizer não o comprei, ganhei-o num concurso da Net Rádio Católica, e antes que me venham dizer que a NRC não anda por aí a distribuir livros de fufas nojentas coisíssima nenhuma, o que eu ganhei foi uma entrada dupla para a Grande Revista à Portuguesa do Filipe La Féria só que o teatro de revista não faz o meu género portanto fui ao olx e troquei os bilhetes pelo livro da Mercury porque há que dizê-lo com frontalidade porque é uma grande verdade que os padres não gostam nada de fufas mas pelam-se por bichonas e quem disser o contrário está a mentir com quantos dentes tem!

 

 

 

Voltando ao livro da Malu se quiserem eu empresto, digo até dou a quem me pedir porque eu pensava que aquilo tinha mais substância, assim tipo que ela contasse que era namorada da assessora de imprensa da Daniela e que um dia ela as apanhou no camarim em pleno acto e que aquilo foi uma confusão tão grande que tiveram que chamar a guarda estatal, federal e florestal e os polícias municipais e nacionais e os bombeiros e tudo o mais para acalmarem a namorada atraiçoada que ninguém gosta de ser encornada, a Zefa que o diga que até parece que é mania das fufas andarem todas enroladas umas com as outras! Mas não, o passado das meninas foi todo branqueado e aquilo no livro é assim uma espécie de deserto cheio de folhos e fofuras e arco-irís cheios de brilhos cor-de-rosa segurados por anjinhos que cantam hinos ao amor e à bondade e ao carinho e a tudo o que é bom nesta vida, mas tanto assim também não, porque sinceramente aquilo é tanta purpurina que parece que se nos enfia na garganta e dá-nos vontade de vomitar, rosa, amarelo, trovão, isso se calhar era bonito mas como há bocado deu-me uma fomeca danada e estive a comer uma lata de lentilhas aquecidas com um bocadinho de azeite e alho porque não tinha mais nada para comer em casa parece-me que ir ao gregório agora não ia ser coisa boa para ninguém!

 

 

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publicado às 12:45

O meu segredo

por Lucelia, em 10.01.14

 

 

Bem sei que de repente parece que voltámos à época dos três Fs, Fátima, Futebol e Fado, pena que não haja um quarto F para Fufas mas um dia chegará o nosso tempo e nessa altura, ai nessa altura, se cuidem porque nós vamos arrasar!

 

Andei aqui na net a ver o que se passava por aí e parece que é só notícias do homem que morreu, tá bem que era bom de bola mas eu nem me lembro de o ver jogar se bem que o futebol nunca foi coisa que me despertasse algum tipo de interesse, e o segredo da outra que foi revelado há uma catrefada de anos mas agora parece que está exposto e ai que lindo que a menina tinha uma caligrafia tão certinha como se ninguém soubesse que antigamente se escrevessemos torto por linhas direitas apanhávamos tantas réguadas nos ossinhos das mãos que havia vezes que nem conseguíamos saber os dias dos meses porque aquilo era tudo altos, não havia buracos para os meses mais curtos nem nada!

 

Agora parece que se fala muito em segredos e anda tudo a contar os segredos deles e dos outros e eu então aproveito e como não sei se duro muito mais tempo porque hoje acordei assim com uma dor difusa que parece que vai e vem e quando vem é como se fosse uma onda a rebentar-se-me assim mesmo a meio da nuca e eu acho que isto é um sinal que a minha vida está por um fio por isso aqui vai disto! Eu… já… não sou virgem! Pronto, contei, está dito, está lançado e escrito este meu segredo que me consumiu durante tantos anos e podem vir agora insultar-me, crucificar-me, chamar-me de porca, promíscua e outras coisas a começar por "p" que eu não estou nem aí, ou por outra por enquanto estou mas acho que a coisa não está para durar por isso amanhã se eu não acordar mais desse sono profundo que é a morte lembrem-se que esta que vos escreve assumiu-se perante vós e partiu deste mundo cruel com a consciência tranquila de quem não deixou nenhum segredo por revelar!

 

O quê? Pensavam que o meu segredo era uma coisa banal tipo ser fufa? Ou algo mais escabroso como matar e comer criancinhas ao pequeno-almoço? Pois, lamento mas já não ser virgem é mesmo o pior erro que assumo nesta minha vida desregrada. E não vou contar pormenores da experiência por dois motivos, ele ainda está vivo e jurou-me que nunca ia contar a ninguém o que se tinha passado entre nós e até ver manteve a promessa se não eu já lá tinha ido partir-lhe a bengala do meu avô nas costas e olhem que aquilo é um cajado de pastor como já não se fazem há anos. E porque as minhas amigas iam ficar tão danadas comigo que em calhando deixavam de me falar e nesta hora em que me sinto assim quase à beira da morte quero partir rodeada por aqueles que mais amo, sem ressentimentos, sem raivas, sem rancores.

 

Podia contar o segredo da Zefa, que ela me disse um dia destes e eu encolhi os ombros, o que é que uma pessoa há-de fazer quando ela me diz que se ganhasse o euromilhões queria ir à Suíca fazer uma operação como aquele rapaz da casa dos segredos e mudar o nome para Zé Tibúrcio em homenagem ao bisavô que parece que era um homem de grande carácter e personalidade e parece que era mesmo o único homem competente da aldeia porque sempre que uma moça precisava de engravidar chamavam-no a ele e nunca deixou nenhuma cliente insatisfeita pelo que a Zefa tem centenas se não milhares de primos por esse país fora.

 

Ou mesmo o segredo da Micaela, porque houve uma altura que ela andava mesmo avariadinha da mioleira e resolveu mascarar-se de travesti e andava aí em bares a engatar homens gay mas a coisa ia dando para o torto porque quando eles percebiam que ela não era um homem, apesar de estar vestida de mulher, ficavam danados e ela arriscou-se muitas vezes a levar uma carga de porrada e a ficar sem dentes ou pior. É uma maluca aquela mulher, destrambelhada mesmo, do pior! Mas depois tem um coração gigante e acabamos sempre por a aceitar de volta mesmo não concordando com estes comportamentos desviantes dela.

 

Ai e os segredos da Rosalina, ai se se soubessem, mas esses não posso mesmo contar porque não só ela ia renegar a nossa amizade para todo o sempre como muito provavelmente a mãe expulsava-a de casa e nunca mais a deixavam entrar na igreja e ela ia acabar a fazer companhia aos sem-abrigo do centro de acolhimento da Torre de Pedras Duras e Escuras. É assim a vida, uns segredos a gente até conta e não vai daí grande mal ao mundo, outros temos que guardar para nós e levar connosco para o túmulo e deixar que se esvaneçam por aí dentro dos estomagozitos dos vermes que se ocuparem de nos esventrar duma forma ordeira e delicada, ou então não se formos cremadas, se calhar vou pedir à Salomé que me mande queimar, e depois que me ponham as cinzas numa urnazinha assim em cima da lareira de onde poderei continuar a presidir às reuniões do nosso clube, e assim me despeço com esta visão idílica diria que quase natalícia das minhas queridas amigas todas à volta da lareira em amena cavaqueira, respeitando o meu legado sáfico, coisas mais lindas!

 

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publicado às 09:40

Excursão à dancetaria

por Lucelia, em 08.01.14

 

 

Estávamos todas a pensar como iríamos comemorar este novo ano que agora começou quando alguém se lembrou que era giro irmos beber uns copos e relembrar os anos de juventude que passávamos nas matinés da danceteria Lido, sim porque só as fufas finas é que se podiam dar ao luxo de ir a Lisboa ao Loucuras, as da Rinchoa tinham que se ficar pela Amadora que sempre era mais perto e o Zé Maneta já nos conhecia desde os tempos da primária e deixava-nos sempre entrar sem pagar e em calhando ainda nos dava uns cupons para bebermos umas cervejas à conta desde que o deixássemos ver a Micaela e a Idalete darem uns beijos que isso na altura ainda me espantava como é que os homens se pelavam todos por uns beijinhos entre mulheres mas agora já sei que é mesmo da natureza deles e não há nada a fazer.

 

A Micaela que sabe destas coisas descobriu uma dancetaria à beira-rio que faz umas ladies nights que são assim umas noites onde as mulheres entram sem pagar e ainda lhes oferecem bebidas e quando se vai aquilo está sempre cheio de fufas porque se é para entrar sem pagar e ainda com bebidas à borla elas estão todas lá caídinhas. Agarrámos e fomos todas em excursão umas mais alegres que outras porque eu nestas coisas já vou assim a meio gás, dizem-me que é da idade mas eu acho que é mais porque ao longo dos anos desenvolvi este sexto sentido que vai o caminho todo a dizer-me que a coisa vai acabar mal e quando acaba passa o dia seguinte todo a dizer-me eu bem te disse, há-de haver um dia em que me hás-de dar ouvidos Lucélia Maria!

 

Ao início foi engraçado, aquilo estava cheio de pequenas que olhavam para nós com ar desconfiado, não devem estar habituadas a ver fufas da Rinchoa, ou então era por termos uns bons trinta anos a mais que elas. Mas elas estavam na boa e nós também, a beber bebidas baratas do chinês porque estes gajos também não são parvos e quando é à borla toca de despachar o que não se vende nas outras noites e eu nem gosto muito de abusar dessas coisas porque os rótulos está tudo em chinês e a gente nem sabe bem o que está lá dentro, vai-se a ver e até pode ser mata-ratos ou algo pior e no dia seguinte a gente acorda e nem sabe qual é nome da terra que nos viu nascer.

 

De repente olho em volta e vejo que falta a Micaela e andei ali um bom bocado pela pista à procura dela até que a vejo em amena cavaqueira com um simpático casal que não deviam ter mais de dezasseis anos e é só porque se me vierem perguntar eu digo que eles tinham ar de ser maiores de idade sim senhora! A miúda ria-se com aquele risinho nervoso e dizia à Micaela que nunca tinha beijado uma mulher mas tinha vontade de experimentar. E o rapaz a incentivá-la, sim experimenta que eu quero ver! A miúda lá consentiu e a Micaela que já devia ter uns copos a mais agarra-a e vai de começar logo a por-lhe a língua dentro da boca como se a miúda fosse mais uma das brasileiras lá do salão! Claro que ela começou aos gritos a dizer que não gostava daquilo, a Micaela ria-se, o rapaz ria-se, e a miúda toda danada olha a ver se tu também gostavas e ele que sim, claro que sim! A Micaela não vai de modas e agarra-se ao rapaz e enfia-lhe a língua e tudo mas este tá quieto que via-se que estava a gostar e não era nada pouco! Começa assim a ver-se-lhe aquilo a crescer-lhe entre as pernas e aí a miúda ficou mesmo histérica e desata às palmadas ao namorado que vergonha que descaramento estar assim agarrado a outra mulher nesses modos mesmo à frente dela!

 

Nisto aparece um segurança a dizer que tínhamos que nos acalmar porque se não ia tudo para a rua e a Micaela ofereceu-se para levar a miúda lá para fora para ver se lhe passava o nervosismo. E eu fui ter com as outras e disse que estava na hora de irmos embora e elas fulas porque ainda não tinham bebido tudo a que tinham direito mas às tantas foi melhor assim que estas bebidas do chinês o melhor é não se abusar muito delas. Chegámos cá fora e a Micaela nem vê-la, o que foi assim uma espécie de balde de água fria porque ela é que tinha trazido o carro e agora como é que íamos voltar para casa, sendo que àquela hora já não havia transportes e mesmo que houvesse ninguém tinha trazido dinheiro porque a ideia era ser tudo à borla até que a Nilda se lembrou que não estávamos muito longe dum centro para sem-abrigos que a Rosalina costumava frequentar em regime de voluntariado e lá fomos nós bater à porta para ver se nos podiam ajudar. O rapazito que lá estava olhou para nós e disse-nos que não éramos sem-abrigo e nós dissemos que tínhamos sido assaltadas e ele que tínhamos era que ir fazer queixa à polícia que ali não era a santa casa da misericórdia até que a Nilda lhe disse que éramos amigas da Rosalina Maria das Dores e ele lá concordou em ajudar-nos mas que disséssemos à Rosalina que em troca ela tinha que fazer um turno da noite e nós sim sim claro e ela sem saber e sem sequer ter ido já estava a ser entalada. Arranjou-nos uns beliches para passarmos a noite e deu-nos uns bilhetes de comboio com muitas recomendações para ficarmos quietas e caladas porque ali a clientela não era das mais recomendáveis. E assim passei o resto da noite que deveria ter sido de revivalismo dos nossos verdes anos entre os roncos dos sem-abrigo e os grunhidos da Idalete a dizer mal da minha vida e a pensar que nunca mais me apanham noutra!

 

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publicado às 09:22


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