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Atrás da Moita

por Lucelia, em 12.05.14

A Cátia está aqui a dizer-me que não gosta deste título mas a alternativa seria "atrás do sol posto é onde fica a Moita" por isso decidi encurtar para não cansar as minhas leitoras logo a abrir porque nem sabem o que por aí vem. A Cátia também não queria que eu contasse as nossas peripécias de sábado à noite porque ela diz que pelo que eu escrevo parece que as fufas são assim todas uma espécie de filhas do demo que só atraem azares e chatices mas se as coisas acontecem eu tenho a obrigação de contar tudo tal como foi, mesmo que isso prejudique a imagem que os portugueses e demais mundo tenham de nós.

 

No sabádo estávamos todas quietinhas no sossego dos nossos lares quando uma alminha que mais valia ter ficado calada se lembrou que seria uma boa ideia irmos até às festas da liberdade na Moita, até porque estava uma bonita noite de Primavera e é sempre bom ir arejar de vez em quando para não ganharmos mofo, que os invernos aqui na nossa zona são muito rigorosos e húmidos. Eu até agradeci porque o mau tempo tem um efeito devastador nas mulheres em geral e nas fufas em particular e ao fim dum tempo começamos a andar todas amofinadas umas com as outras e nessa altura o melhor é pegarmos em nós e fazermos uma excursão a qualquer lado. Podíamos era ter ficado mais perto de casa porque a Moita é longe como tudo mesmo que a gente tenha que estabelecer laços para além das pontes para não ficarmos só confinadas aqui às serras e às matas, enfim, lá fomos nós rumo à margem sul para uma noite de diversão e convívio.

 

Demorámos imenso tempo a chegar porque várias mulheres num carro a acharem todas que sabem o caminho quando nenhuma delas tinha posto o pé na Moita é coisa para nos perdermos várias vezes por entre os Sarilhos Grandes e os Pequenos e só quando chegámos à Baixa da Banheira é que percebemos que já estávamos bem para lá da Moita e tivemos que voltar tudo atrás. Uma vez chegadas ao recinto da feira até ficámos agradavelmente surpreendidas porque estava bem compostinho e via-se que a população ali preza muito a liberdade tal era a quantidade de criancinhas que corriam sem supervisão de espécie alguma pelos pais que se encontravam junto às barraquinhas a emborcarem cerveja como se não houvesse amanhã. É também isto a liberdade, entregar-se aos bons momentos sem pensar nas consequências ou mesmo pensando encolher os ombros e dizer "que se lixe! ófaxavor traga mais uma jola e um pires de tremoços!"

 

Estava eu entretida com os meus pensamentos a saborear um panaché quando ouço uns gritos ao longe e vejo a Micaela a esbracejar e a chamar-me e quando chego ao pé dela está a Idalete estatelada no chão agarrada a uma perna a gemer. Não sei porque raio a mulher viu uma daquelas aranhas com elásticos que se prendem nas coxas dos miúdos que depois se põem para ali aos pulos e ela achou que aquilo é que era adrenalina da pura e convenceu o escuteiro a pôr-lhe os arneses porque ela é assim baixinha e ele perguntou-lhe se ela pesava mais de 45 kilos e ela muito escandalizada disse logo que não e ele vai e deixa-a subir para aquilo mas como a Idalete não pesa menos de 45 kilos há mais de 40 anos claro que ao primeiro impulso aquilo soltou-se tudo e a ela veio parar ao meio do chão! Já estava eu a dar-lhe um raspanete quando a Micaela me acalmou e me disse que pelo menos aparentemente não havia ossos partidos sendo que a única consequência da queda foi a Idalete ter ganho um andar à Paulo Gonzo.

 

Fomos ter com as outras que estavam em jovial confraternização com um grupo de fufas da Moita que são moças bem constituídas assim mesmo para o latagonas, deve ser dos ares, elas bem diziam para eu respirar fundo e ver como ali o ar era puro e saudável e a mim cheirava-me vagamente a estrume mas se aquilo é bom para as vacas também deve ser bom para as fufas que se vê mesmo que são viçosas e robustas, deve ser dos caracóis e das bifanas que ali as meninas são finas e comem muitas proteínas. Conversa puxa conversa e elas a dizerem que na margem sul não havia lésbicas como as da Moita, elas eram as rainhas do pedaço e ninguém se atrevia a meter-se com elas e eu a pensar que precisávamos de meninas assim destemidas na Rinchoa, não é que a gente tenha medo mas sentiamo-nos mais confiantes com espécimes daqueles no nosso grupo. Infelizmente a bazófia dá sempre maus resultados, e calhou estar a passar por ali um grupo de fufas do Samouco e as outras começam a mandar bocas porque parece que nessa zona o rio está mais poluído e então as fufas não vingam, ficam assim mais enfezaditas e lingrinhas, daquelas que parece que andam de mal com o mundo, e vai uma dessas e chega-se à chefe do grupo das da Moita e diz-lhe que agora é só garganta mas quando andaram as duas enroladas já não se queixava, especialmente quando lhe pedia para enfiar a mão em punho cerrado pela c... adentro até ao ombro! A outra claro ficou logo muito vermelha e desata a bufar e nem vi quem atirou a primeira pedra porque peguei logo na Maria Antónia e enfiei-me com ela debaixo da cabine de som até acalmarem os ânimos.

 

Quando saímos vimos um cenário dantesco, umas caídas para um lado, sangue a jorrar, dentes partidos, mas o que valeu às nossas é que tiveram o discernimento de se porem atrás das bisarmas da Moita pelo que se safaram sem grandes mazelas, excepto a Zefa que não é de apanhar e ficar-se mas como tem casca grossa conseguiu safar-se só com uns arranhõezitos e uma amolgadela no nariz. Decidimos acabar a noite por ali antes que houvessem mais feridos e depois de trocarmos contactos com as poucas fufas da Moita que ainda se encontravam conscientes saímos do recinto e fomos à procura da carripana o que demorou mais algum tempo porque a Moita é bem maior do que parece à primeira vista, é o mesmo que acontece a quem vem à Rinchoa a pensar que aquilo é só um lugar de passagem e depois apercebe-se que há muito mundo ali, que até temos um Clube Safo e tudo, esperem só chegar ao Verão e vão ver a quantidade de actividades que o nosso Clube vai organizar!

 

Como não há duas sem três estávamos quase a chegar ao carro e a Rosalina começa a dizer que está muito aflitinha e que não ia conseguir aguentar-se até chegar a casa e nós fomos à procura duma moita atrás de onde ela se pudesse aliviar. Assim que se agacha desata aos urros e nós "que se passa mulher?" e ela "pica pica pica!" e nós sem percebermos nada até vermos que ela se tinha sentado precisamente em cima dum cacto! Pegámos nela enrolámo-la na écharpe da Micaela e passamos um bom bocado ali à cata dos espinhos enterrados na carne da Rosalina que veio o caminho todo a gemer e nós a dizer-lhe para ela aproveitar o sofrimento como castigo por todos os seus pecados! Pelo amor de Safo enquanto me lembrar desta noite não me meto noutra igual! Agora se quiserem festas o mais que vou é ali até S. Pedro, se bem que dizem que as festas do Casal de São Brás também são muito bonitas.

 

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publicado às 14:41



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