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Enquanto andamos para aqui a discutir para que serve o nosso clube eu vou metendo umas buchas sobre certas manias que me enervam um bom bocado e que elas estão sempre a dizer que eu é que sou assim que tenho manias de perfeição mas é mentira porque eu tenho dois olhos na cara e sei bem ver as coisas como são.

 

Uma das manias que mais me tiram do sério é aquela de acharem que toda a gente lhes quer mal, a começar pelas benditas das freiras lá dos colégios onde andaram na mais tenra infância. Ora eu que nunca andei num colégio de freiras não percebo esta mania de acharem que o mundo está contra elas e deve ser por isso que não ganham o euromilhões porque se tivessem lido o Segredo percebiam logo que o que cá se faz cá se paga! Pois se uma pessoa entra num estabelecimento comercial logo com ar de poucos amigos a achar que vai ser enganada e tem que conferir o troco pelo menos umas três vezes e ainda pedir factura com número de contribuiente para obrigar o pobre do indiano ali da esquina a ter que instalar as traquitanadas todas que as finanças agora exigem, pois claro que assim não arranjam amigos, muito pelo contrário!

 

A Zefa que é assim aquela mais directa começa logo por dizer que mais vale prevenir que remediar e então com ela é sempre tudo à bruta! É que não dá sequer hipótese que ao mínimo sorriso acha logo que se estão a meter com ela e começa logo a disparatar e ós ouça lá! Para onde é que está a olhar? Nunca viu uma fufa é?

 

Enfim, eu bem lhes digo que a pessoa tem que ser discreta e simpática e eu bem sei o que passei na vida e não precisei das freiras para perceber que a maldade reside em todo o lado, mesmo nos mais insuspeitos. Os meus pais eram pessoas modestas, ele mecânico e ela dona de casa mas que ia dando um jeito por fora sempre que lá iam as vizinhas levar trapos e roupas para fazer bainhas. Com muito esforço tiveram o casalinho da praxe e durante algum tempo parecíamos mesmo uma família de novela, se bem que o meu irmão chorava muito mais do que eu e muito mais depressa se agarrava às saias da minha mãe. Eu era enfezadita, isto foi antes das crianças desatarem a tomar vitaminas e suplementos a torto e a direito, mas quem me dava levava, nunca me fiquei, mesmo quando o Toninho que era uns bons 20 cm mais alto que eu me deu um encontrão tão grande que por pouco não fiquei sem um braço. E ele ficou-se a rir o palhaço, mas não por muito tempo porque eu agarrei num tronco e dei-lhe uma canelada tão grande que ainda hoje me parece que ele coxeia ligeiramente!

 

Os meus pais deviam ter logo percebido que havia ali qualquer coisa estranha, mas eram gente simples e na altura não se prestava muita atenção às crianças. O meu irmão Fabrício só se dava com meninas e eu com rapazes. Era eu que acompanhava o meu pai nas tardes de férias, que ia com ele para a oficina e o ajudava a afinar os motores dos carros. O meu irmão ficava verde só de pensar naquele óleo a escorrer por todo o lado e a sujar-lhe os calções axadrezados de que ele tanto gostava. Mas só muito mais tarde é que os meus pais perceberam o que se passava quando o meu irmão resolveu contar-lhes que era homossexual desde sempre e que se quisessem netos que os fossem pedir a mim! Foi aí que eu resolvi calar-me bem caladinha porque assim como assim o choque inicial estava dado e quando fosse a minha vez de me chegar à frente, sim porque eu também desde sempre soube que era lésbica, eles já iam estar habituados à ideia de em vez de netos terem gatos.

 

Com tudo isto eu podia ter ficado assim como algumas, de mal com a vida e com o mundo, mas não fiquei porque ninguém tem culpa do meu irmão ser parvo! Não por ser homossexual, isso é lá com ele, mas pela forma como disse aos meus pais que a culpada era a mãe e que agora ia para fora e que se amanhassem cá sozinhos que ele ia viver a vida dele bem longe de nós. Está uma pessoa a criar um filho uma vida inteira para chegar a isto! É o que eu digo, somos irmãos e lá nos falamos no skype quando ele faz anos, ou eu, e às vezes no Natal mas nem sempre que as linhas ficam congestionadas e depois vê-se a pessoa toda aos quadradinhos e parece que só nos chegam cá metade das palavras! Eu da primeira vez ainda reclamei mas o rapaz do atendimento lá me disse que nesta altura do ano os técnicos eram poucos para tanto serviço mas que eu ficasse descansada porque me iam mandar alguém a casa. Até hoje! E eu claro, não voltei a ligar porque entretanto recebi a factura e percebi que as chamadas para o atendimento são pagas!

 

Com tudo isto os meus pais até se podiam ter revoltado contra mim, mas acho que nessa altura já estavam por tudo e eu até era boa filha, fazia-lhes companhia e nunca lá meti desordeiros em casa! Só não gostava das visitas que o padre fazia à minha mãe, ia lá consolá-la pela perda do filho, mas aproveitava sempre para lhe pedir uma ajudinha para as obras do telhado da igreja! Não sendo má pessoa, o padre naturalmente não gostava de mim porque desde muito cedo deixei de ir à igreja. E olhem que na altura isso era muito mal visto! E é isso que eu digo às minhas amigas, vocês até parece que agora vivem pior que dantes! É que há uns anos ser-se fufa era logo para pôr uma pessoa a olhar para nós com ar horrorizado! Agora não! Agora uma pessoa diz que marido não senhora não tenho porque sou lésbica e dizem-nos logo ahh que interessante e tem mulher em vista? E está a pensar casar-se? Casar ouviram bem! Alguma vez na minha vida eu ia pensar que as lésbicas se podiam assim casar umas com as outras! Já não bastava as cerimónias dos anéis de compromisso que era assim tudo feito às escondidas em vãos de escada e eu lembro-me até duma vez que a Zefa ficou trancada dias a fio porque tinha combinado com uma namorada da altura ir ter com ela e a outra atrasou-se e vai a contínua e fecha aquilo assim tudo à chave e a Zefa bem que gritou e esperneou e quando finalmente deram por ela jurou-me que nunca mais se metia noutra e até a Zefa, imaginem, está a pensar casar-se e desta vez vai ser ali no Rouxinol e tudo porque a mãe dela já está meio patareca mas gosta de festas e anda de tal forma animada que ninguém tem coragem de lhe dizer que aquilo é uma festa de casamento entre duas mulheres.

 

Por isso é que eu digo, hoje está tudo tão diferente que só as fufas é que parece que pararam no tempo e continuam a achar que o mundo se uniu para as tramar. Olha na próxima reunião do clube vamos debater o tema porque acho que elas precisam de arejar as ideias, entrar no século XXI assim para a frente é que é o caminho e as coisas estão-se a compor!

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publicado às 11:55



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