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Excursão à dancetaria

por Lucelia, em 08.01.14

 

 

Estávamos todas a pensar como iríamos comemorar este novo ano que agora começou quando alguém se lembrou que era giro irmos beber uns copos e relembrar os anos de juventude que passávamos nas matinés da danceteria Lido, sim porque só as fufas finas é que se podiam dar ao luxo de ir a Lisboa ao Loucuras, as da Rinchoa tinham que se ficar pela Amadora que sempre era mais perto e o Zé Maneta já nos conhecia desde os tempos da primária e deixava-nos sempre entrar sem pagar e em calhando ainda nos dava uns cupons para bebermos umas cervejas à conta desde que o deixássemos ver a Micaela e a Idalete darem uns beijos que isso na altura ainda me espantava como é que os homens se pelavam todos por uns beijinhos entre mulheres mas agora já sei que é mesmo da natureza deles e não há nada a fazer.

 

A Micaela que sabe destas coisas descobriu uma dancetaria à beira-rio que faz umas ladies nights que são assim umas noites onde as mulheres entram sem pagar e ainda lhes oferecem bebidas e quando se vai aquilo está sempre cheio de fufas porque se é para entrar sem pagar e ainda com bebidas à borla elas estão todas lá caídinhas. Agarrámos e fomos todas em excursão umas mais alegres que outras porque eu nestas coisas já vou assim a meio gás, dizem-me que é da idade mas eu acho que é mais porque ao longo dos anos desenvolvi este sexto sentido que vai o caminho todo a dizer-me que a coisa vai acabar mal e quando acaba passa o dia seguinte todo a dizer-me eu bem te disse, há-de haver um dia em que me hás-de dar ouvidos Lucélia Maria!

 

Ao início foi engraçado, aquilo estava cheio de pequenas que olhavam para nós com ar desconfiado, não devem estar habituadas a ver fufas da Rinchoa, ou então era por termos uns bons trinta anos a mais que elas. Mas elas estavam na boa e nós também, a beber bebidas baratas do chinês porque estes gajos também não são parvos e quando é à borla toca de despachar o que não se vende nas outras noites e eu nem gosto muito de abusar dessas coisas porque os rótulos está tudo em chinês e a gente nem sabe bem o que está lá dentro, vai-se a ver e até pode ser mata-ratos ou algo pior e no dia seguinte a gente acorda e nem sabe qual é nome da terra que nos viu nascer.

 

De repente olho em volta e vejo que falta a Micaela e andei ali um bom bocado pela pista à procura dela até que a vejo em amena cavaqueira com um simpático casal que não deviam ter mais de dezasseis anos e é só porque se me vierem perguntar eu digo que eles tinham ar de ser maiores de idade sim senhora! A miúda ria-se com aquele risinho nervoso e dizia à Micaela que nunca tinha beijado uma mulher mas tinha vontade de experimentar. E o rapaz a incentivá-la, sim experimenta que eu quero ver! A miúda lá consentiu e a Micaela que já devia ter uns copos a mais agarra-a e vai de começar logo a por-lhe a língua dentro da boca como se a miúda fosse mais uma das brasileiras lá do salão! Claro que ela começou aos gritos a dizer que não gostava daquilo, a Micaela ria-se, o rapaz ria-se, e a miúda toda danada olha a ver se tu também gostavas e ele que sim, claro que sim! A Micaela não vai de modas e agarra-se ao rapaz e enfia-lhe a língua e tudo mas este tá quieto que via-se que estava a gostar e não era nada pouco! Começa assim a ver-se-lhe aquilo a crescer-lhe entre as pernas e aí a miúda ficou mesmo histérica e desata às palmadas ao namorado que vergonha que descaramento estar assim agarrado a outra mulher nesses modos mesmo à frente dela!

 

Nisto aparece um segurança a dizer que tínhamos que nos acalmar porque se não ia tudo para a rua e a Micaela ofereceu-se para levar a miúda lá para fora para ver se lhe passava o nervosismo. E eu fui ter com as outras e disse que estava na hora de irmos embora e elas fulas porque ainda não tinham bebido tudo a que tinham direito mas às tantas foi melhor assim que estas bebidas do chinês o melhor é não se abusar muito delas. Chegámos cá fora e a Micaela nem vê-la, o que foi assim uma espécie de balde de água fria porque ela é que tinha trazido o carro e agora como é que íamos voltar para casa, sendo que àquela hora já não havia transportes e mesmo que houvesse ninguém tinha trazido dinheiro porque a ideia era ser tudo à borla até que a Nilda se lembrou que não estávamos muito longe dum centro para sem-abrigos que a Rosalina costumava frequentar em regime de voluntariado e lá fomos nós bater à porta para ver se nos podiam ajudar. O rapazito que lá estava olhou para nós e disse-nos que não éramos sem-abrigo e nós dissemos que tínhamos sido assaltadas e ele que tínhamos era que ir fazer queixa à polícia que ali não era a santa casa da misericórdia até que a Nilda lhe disse que éramos amigas da Rosalina Maria das Dores e ele lá concordou em ajudar-nos mas que disséssemos à Rosalina que em troca ela tinha que fazer um turno da noite e nós sim sim claro e ela sem saber e sem sequer ter ido já estava a ser entalada. Arranjou-nos uns beliches para passarmos a noite e deu-nos uns bilhetes de comboio com muitas recomendações para ficarmos quietas e caladas porque ali a clientela não era das mais recomendáveis. E assim passei o resto da noite que deveria ter sido de revivalismo dos nossos verdes anos entre os roncos dos sem-abrigo e os grunhidos da Idalete a dizer mal da minha vida e a pensar que nunca mais me apanham noutra!

 

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publicado às 09:22


1 comentário

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De Zefa a 09.01.2014 às 20:21

Ainda me lembro de ter ido à discoteca Memorial para os lados do príncipe real em Lisboa, mas nunca tive muito jeito para dançar e nos slows era difícil arranjar par. Em adolescente, houve uma vez uma miúda que me disse que era hetro e que me convidou para dançar, tinha ido com a prima da Suzy, no fim da tarde quando lhe dei o telefone de casa de meus pais com o meu nome, numa carteira de fósforos e que ela percebeu que zefa não era de Zé Fernandes, disse que me ligava mas nunca me ligou ainda hoje penso que deve ter perdido o contacto...

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